Com base numa lista publicada pela Sociedade Norte Americana de Entomologia, está circulando a notícia de que cupins, a partir do dia 15 de fevereiro, passaram a ser oficialmente baratas. O Wikitermes sentiu-se então na obrigação de esclarecer algumas questões.

Para começo de conversa: sim, cupins são um tipo de barata. Mas na verdade isso não é nenhuma novidade, e não foi determinado de um dia para o outro, e também não é algo que uma pessoa, mesmo um especialista, ou uma sociedade de um país, pode determinar. Não é assim que o conhecimento científico é construído, mas através de discussões entre vários cientistas, em vários lugares do mundo, ao longo de algum tempo.

As evidência do parentesco entre cupins e baratas já foram notadas há bastante tempo. Cleveland e colaboradores, em 1934, por exemplo, já haviam falado: “São enormes as evidências de que as baratas do gênero Cryptocercus são os ancestrais (sic) dos cupins, ou são os parentes mais próximos desses ancestrais (que hoje são extintos)”

Três grupos de insetos (os louva-deus, baratas e cupins) há muito tempo são agrupados pelos cientistas em um grupo chamado Dictyoptera, e nas últimas décadas raramente houve discordância quanto a eles formarem um grupo natural (ou seja, um grupo de organismos que compartilham um ancestral comum). Uma característica que reúne esses três tipos de insetos, por exemplo, é que todos colocam seus ovos em ootecas (apesar de apenas uma linhagem de cupins ainda fazer isso).

Acontece que as relações dentro de Dictyoptera (ou seja, entre cupins, louva-deus e baratas) nunca tinham sido uma unanimidade, pelo contrário, várias hipóteses sobre o parentesco entre eles foram propostas ao longo dos anos, sendo algumas mais, outras menos aceitas. Mas foi há pouco mais de 10 anos (em 2007) que ocorreu aquele que provavelmente tenha sido o mais acalorado debate (de ideias) sobre se cupins são ou não baratas. Quando Inward e colaboradores (2007) publicaram um artigo intitulado “Morte de uma Ordem: uma filogenia molecular confirma que cupins são baratas eussociais”.

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Para “ler” a árvore, note a linha do tempo: sendo que aquilo que está mais à esquerda representa eventos antigos, enquanto que a ponta da árvore, mais à direita, representa os grupos que estão vivos hoje.

Esse trabalho utilizou fontes de dados moleculares e morfológicos, e chegaram em uma hipótese robusta de que os cupins seriam um grupo interno de baratas, que é essa da árvore que colocamos aqui.

Essa árvore começa no tempo que viveu o ancestral comum de Dictyoptera (na bolinha número 1). Com o passar do tempo (indo da esquerda para direita), o primeiro evento evolutivo foi uma divergência entre dois grupos. Um deles deu origem aos louva-deus, enquanto o outro ramo, deu origem ao ancestral comum de todas as baratas e cupins (bolinha número 2). Considerando todos os descendentes desse ancestral, é bem provável que ele fosse muito parecido com uma barata atual, mas claro, esse ancestral não existe mais (por isso aquele sic na fala do Cleveland lá em cima).

Mas veja que esse ancestral 2 deu origem à várias linhagens de baratas diferentes (sim, existem mais de 6 mil espécies de baratas no mundo, e elas são agrupadas em diferentes grupos, colocamos letras apenas para não confundí-lo com mais nomes), além da linhagem que posteriormente deu origem aos cupins.

E é justamente aí que vem toda a polêmica. As baratas (ou a ordem Blattaria) devem incluir todos os descendentes do ancestral número 2, ou seja, todos os grupos que já estávamos acostumados a chamar de baratas, e os cupins!

Agora repare na bolinha número 3. Ela representa o ancestral comum compartilhado entre os cupins e o grupo “Baratas C”. Sim, é isso mesmo, o resultado no qual filogenias recentes chegaram, com dados moleculares e tudo, basicamente é aquele o Cleveland já tinha cantado a bola lá em 1934!

O artigo da “morte de uma ordem” obteve uma resposta: “Salvem Isoptera” - publicada por pesquisadores de todo o mundo (Lo et al., 2007), e depois ainda teve uma réplica (Eggleton et al. 2007). Mas o que aconteceu é que vários outros trabalhos foram publicados nos últimos 10 anos, sempre confirmando que cupins são um grupo dentro das baratas. Inclusive um catálogo com todos os cupins do mundo foi publicado em 2013 (Krishna et al. 2013), já chamava Isoptera de infraordem, dentro da ordem das baratas (Blattaria). Veja a classificação dos cupins no quadro abaixo, segundo dois trabalhos diferentes… de 2011.

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Em 2011 saíram dois trabalhos mostrando a classificação dos cupins. Mesmo discordando em relação à manutenção do nome Isoptera, não há discordância em relação ao posicionamento de cupins dentro da ordem das baratas (Blattodea ou Blattaria)

Ou seja, esse debate já está resolvido a quase 10 anos entre os pesquisadores que trabalham com cupins.

Mas então porque só agora a Sociedade Norte Americana de Entomologia foi “divulgar” essa informação? Na verdade é porque lá nos Estados Unidos, não são apenas os nomes científicos que possuem normas para serem utilizados. Eles possuem um banco de dados com nomes comuns (ou nomes populares) dos animais. E foi esse banco de dados que finalmente incluiu os cupins dentro da ordem das baratas.

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Resumindo, com as novas (ou nem tão novas) hipóteses de relacionamento, os cientistas possuem evidências suficientes para afirmar que os cupins são um grupo de baratas. Mas os cupins continuam sendo cupins, pois também tem características suficientemente diferentes dos outros grupos de baratas. Na prática, o que muda (ou o que mudou depois do artigo do Inward) é como enxergamos a evolução dentro desses grupos de insetos “aparentados". E nós, termitólogos, podemos falar que estudamos as baratas mais legais.


Caso não tenha ficado claro a parte da filogenia, sugiro que veja esse vídeo do Pirula, onde ele explica por que nós, seres humanos, somos todos macacos. A ideia é a mesma, assim como nós somos macacos, as aves também são dinossauros, e os cupins são baratas.


Referências

Beccaloni, G., & Eggleton, P. (2011). Order Blattodea Brunner von Wattenwil, 1882. In: Zhang Z-Q (Ed) Animal biodiversity: An outline of higher-leve classification and survey of taxonomic richness. Zootaxa, 3148, 199-200.

Cleveland, L.R., Hall, S.R., Sanders,E.P. & Collier, J. (1934) The wood-feeding roach Cryptocercus, its protozoa, and the symbiosis between protozoa and roach. Memoirs of the American Academy of Arts and Sciences. 17:185–342

Eggleton, P., Beccaloni, G., & Inward, D. (2007). Response to Lo et al. Biology letters, 3(5), 564-565. http://doi.org/10.1098/rsbl.2007.0367

Engel, M.S. (2011). Family-group names for termites (Isoptera), redux. ZooKeys, (148), 171. http://doi.org/10.3897/zookeys.148.1682.

Inward, D., Beccaloni, G., & Eggleton, P. (2007). Death of an order: a comprehensive molecular phylogenetic study confirms that termites are eusocial cockroaches. Biology Letters, 3(3), 331–335. http://doi.org/10.1098/rsbl.2007.0102

Krishna K, Grimaldi DA, Krishna V, Engel MS. 2013. Treatise on the Isoptera of the
World: Volume 1 Introduction.
Bull Am Mus Nat Hist. 377:1–200. http://www.bioone.org/doi/abs/10.1206/377.1

Legendre, F., Nel, A., Svenson, G. J., Robillard, T., Pellens, R., & Grandcolas, P. (2015). Phylogeny of Dictyoptera: dating the origin of cockroaches, praying mantises and termites with molecular data and controlled fossil evidence. Plos one, 10(7), e0130127. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0130127

Lo, N., Engel, M. S., Cameron, S., Nalepa, C. A., Tokuda, G., Grimaldi, D., … & Miura, T. (2007). Save Isoptera: A comment on Inward et al. Biology letters, 3(5), 562-563. http://doi.org/10.1098/rsbl.2007.0264


Texto por: Tiago Carrijo & Joice Constantini


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By Tiago Carrijo
Published 03 Mar 2018 02:21